Estudos

1o. ESTUDO

A Teologia da Libertação: Leonardo Boff e Frei Betto
Michael Löwy
Sociólogo. É um dos principias investigadores do mundo sobre o marxismo latino-americano. Reside em Paris, onde é diretor de investigações no “Centre National de la Recherche Scientifique” (CNRS)

Os cristãos comprometidos socialmente são um dos componentes mais ativos e importantes do movimento altermundista; particularmente, porém não somente na América Latina e especialmente no Brasil, país que acolheu as primeiras reuniões do Fórum Social Mundial (FSM). Um dos iniciadores do FSM, Chico Whitaker, membro da “Comissão Justiça e Paz” da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), pertence a esta esfera de influência, o mesmo que o sacerdote belga François Houtart, amigo e professor de Camilo Torres, promotor da revista Alternatives Sud, fundador do “Centro Tricontinental” (CETRI) e uma das figuras intelectuais mais influentes do Fórum.
Podemos datar o nascimento dessa corrente, que poderíamos denominar como “cristianismo da libertação” no começo dos anos 60, quando a Juventude Universitária Católica brasileira (JUC), alimentada pela cultura católica francesa progressista (Emmanuel Mounier e a revista Esprit, o padre Lebret e o movimento “Economia y Humanismo”, o Karl Marx do jesuíta J.Y. Calvez), formula por primeira vez, em nome do cristianismo, uma proposta radical de transformação social. Esse movimento se estende depois a outros países do continente e encontra, a partir dos anos 70, uma expressão cultural, política e espiritual na “Teologia da Libertação”.
Os dois principais teólogos da libertação brasileiros, Leonardo Boff e Frei Betto, estão, portanto, entre os precursores e inspiradores do altermundismo; com seus escritos e suas palavras participam ativamente nas mobilizações do “movimento dos movimentos” e nos encontros do Fórum Social Mundial. Se sua influencia é muito significativa no Brasil, onde muitos militantes dos movimentos sociais, tais como sindicatos, MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) e movimentos de mulheres provêm de comunidades eclesiais de base (CEBs) conhecidas na Teologia da Libertação, seus escritos também são muito conhecidos entre os cristãos de outros países, tanto da América Latina quanto do resto do mundo.
Se houvesse que resumir a idéia central da Teologia da Libertação em uma só frase, seria “opção preferencial pelos pobres”. Qual é a novidade? Por ventura, a Igreja não esteve sempre, caritativamente, atenta ao sofrimento dos pobres? A diferença – capital – é que o cristianismo da libertação já não considera os pobres como simples objetos de ajuda, compaixão ou caridade, mas como protagonistas de sua própria história, artífices de sua própria libertação. O papel dos cristãos comprometidos socialmente é participar na “longa marcha” dos pobres rumo à “terra prometida” – a liberdade -, contribuindo para sua organização e emancipação sociais.

O conceito de “pobre” tem, obviamente, um profundo alcance religioso no cristianismo; porém, corresponde também a uma realidade social essencial no Brasil e na América Latina: a existência de uma imensa massa de despossuídos, tanto nas cidades quanto no campo, que não são todos proletários ou trabalhadores. Alguns sindicalistas cristãos latino-americanos falam de “pobretariado” para descrever essa classe de deserdados que não somente são vítimas da exploração, mas, sobretudo, são vítimas da exclusão social pura e simples.
O processo de radicalização das culturas católicas do Brasil e América Latina que desembocou na criação da Teologia da Libertação não vai desde a cúpula da Igreja para irrigar sua base, nem a base popular vai à cúpula (duas versões que se encontram nos discursos dos sociólogos ou historiadores do fenômeno); mas da periferia rumo ao centro. As categorias ou setores sociais do âmbito religioso que serão o motor da renovação são todos, de alguma forma, marginais ou periféricos com relação à instituição: movimentos, leigos da Igreja e seus capelães; expertos leigos, sacerdotes estrangeiros, ordens religiosas. Em alguns casos, o movimento alcança o “centro” e consegue influir nas Conferências Episcopais (particularmente no Brasil), em outros casos fica bloqueado nas “margens” da instituição.

Apesar de que existem divergências significativas entre os teólogos da libertação, na maioria de seus escritos encontramos repetidos os temas fundamentais que constituem uma saída radical da doutrina tradicional e estabelecida das Igrejas Católica e Protestante:
– Uma implacável acusação moral e social contra o capitalismo como sistema injusto e iníquo, como forma de pecado estrutural.
– O uso do instrumento marxista para compreender as causas da pobreza, as contradições do capitalismo e as formas da luta de classes.
– A opção preferencial a favor dos pobres e a solidariedade com sua luta de emancipação social.
– O desenvolvimento de comunidades cristãs de base entre os pobres como a nova forma da Igreja e como alternativa ao modo de vida individualista imposto pelo sistema capitalista.
– A luta contra a idolatria (não o ateísmo) como inimigo principal da religião, isto é, contra os novos ídolos da morte, adorados pelos novos faraós, pelos novos Césares e pelos novos Herodes: O consumismo, a riqueza, o poder, a segurança nacional, o Estado, os exércitos; em poucas palavras, “a civilização cristã ocidental”.

Examinemos mais de perto os escritos de Leonardo Boff e de Frei Betto, cujas idéias contribuíram, sem dúvida, à formação da cultura político-religiosa do componente cristão do altermundismo.
O livro de Leonardo Boff – na época, membro da ordem franciscana – Jesus Cristo Libertador, (Petrópolis, Vozes, 1971), pode ser considerado como a primeira obra da Teologia da Libertação no Brasil. Essencialmente, trata-se de uma obra de exegese bíblica; porém um dos capítulos, possivelmente o mais inovador, intitulado “Cristologia desde América Latina”, expressa o desejo de que a Igreja possa “participar de maneira crítica no arranque global de libertação que a sociedade sul-americana conhece hoje”. Segundo Boff, a hermenêutica bíblica de seu livro está inspirada pela realidade latino-americana, o que dá como resultado “a primazia do elemento antropológico sobre o eclesiástico, do utópico sobre o efetivo, do crítico sobre o dogmático, do social sobre o pessoal e da ortopráxis sobre a ortodoxia”; aqui se anunciam alguns dos temas fundamentais da Teologia da Libertação [1].
Personagem carismático, com uma cultura e uma criatividade enormes, ao mesmo tempo místico franciscano e combatente social, Boff converteu-se no principal representante brasileiro dessa nova corrente teológica. Em seu primeiro livro já encontramos referências ao “Princípio Esperança”, de Ernst Bloch, porém, progressivamente, no curso dos anos 70, os conceitos e temas marxistas cada vez mais aparecem em sua obra até converter-se em um dos componentes fundamentais de sua reflexão sobre as causas da pobreza e a prática da solidariedade com a luta dos pobres por sua libertação.
Rechaçando o argumento conservador que pretende julgar o marxismo pelas práticas históricas do chamado “socialismo real”, Boff constata, não sem ironia, que o mesmo que o Cristianismo não se identifica com os mecanismos da Santa Inquisição, o marxismo não tem porque se equiparar aos “socialismos” existentes, que “não representam uma alternativa desejável por conta de sua tirania burocrática e pelo sufocamento das liberdades individuais”. O ideal socialista pode e deve assumir outras formas históricas [2]
Em 1981, Leonardo Boff publica o livro “Igreja, Carisma e Poder”, uma reviravolta na história da Teologia da Libertação: por primeira vez desde a Reforma protestante, um sacerdote católico coloca em xeque, de maneira direta, a autoridade hierárquica da Igreja, seu estilo de poder romano-imperial, sua tradição de intolerância e dogmatismo – simbolizada durante vários séculos pela Inquisição, pela repressão de toda crítica vinda de baixo e o rechaço da liberdade de pensamento. Denuncia também a pretensão de infalibilidade da Igreja e o poder pessoal excessivo dos papas, que compara, não sem ironia, com o poder do secretário geral do Partido Comunista soviético.

Convocado pelo Vaticano em 1984 para um “colóquio” com a Santa Congregação para a Doutrina da Fé (antes, o Santo Ofício), dirigida pelo Cardenal Ratzinger, o teólogo brasileiro não abaixa a cabeça, nem nega retratar-se; permanece fiel a suas convicções e Roma o condena a um ano de “silencio obsequioso”; finalmente, frente à multiplicação dos protestos no Brasil e em outros lugares, a sansão foi reduzida em vários meses. Dez anos mais tarde, cansado das hostilidades, das proibições e das exclusões de Roma, Boff abandona a ordem dos franciscanos e a Igreja, sem, no entanto, abandonar sua atividade de teólogo católico.
A partir dos anos 90 do século passado, interessa-se cada vez mais pelas questões ecológicas que aborda com o espírito de amor místico e franciscano pela natureza e com uma perspectiva de crítica radical do sistema capitalista. Será o objeto do livro Dignitas Terrae. Ecologia: grito da terra, grito dos pobres, (S. Paulo, Ática, 1995) e escreve inúmeros ensaios filosóficos, éticos e teológicos que abordam esta problemática. Segundo Leonardo Boff, o encontro entre a Teologia da Libertação e a ecologia é resultado de uma constatação: “A mesma lógica do sistema dominante de acumulação e da organização social que conduz à exploração dos trabalhadores, leva também à pilhagem de nações inteiras, e, finalmente, à degradação da natureza”.
Portanto, a Teologia da Libertação aspira a uma ruptura com a lógica desse sistema, uma ruptura radical que aponta a “libertar os pobres, os oprimidos e os excluídos, as vítimas da voracidade da acumulação injustamente distribuída e libertar a Terra, essa grande vítima sacrificada pela pilhagem sistemática de seus recursos, que põe em risco o equilíbrio físico, químico e biológico do planeta como um todo”. O paradigma opressão/libertação aplica-se, pois, para ambas: as classes dominadas e exploradas por um lado; e a Terra e suas espécies vivas, por outro [3].

Amigo próximo de Leonardo Boff (publicaram alguns livros juntos), Frei Betto é, sem dúvida, um dos mais importantes teólogos da libertação do Brasil e da América Latina e um dos principais animadores das CEBs (Comunidades Eclesiais de Base). Dirigente nacional da Juventude Estudantil Católica (JEC) no início dos anos 60, Carlos Alberto Libânio Christo (seu nome verdadeiro) começou sua educação espiritual e política com Santiago Maritain, Emmanuel Mounier, o padre Lebret e o grande intelectual católico brasileiro Alceu Amoroso Lima, porém, durante sua atividade militante na União Nacional dos Estudantes (UNE), descobriu O Manifesto Comunista e A Ideologia Alemã. Quando entrou como noviço na ordem dos dominicanos, em 1965, naquela época um dos principias focos de elaboração de uma interpretação liberacionista do cristianismo, já havia tomado firmemente a resolução de consagrar-se à luta da revolução brasileira [4].
Impressionado com a pobreza do mundo e pela ditadura militar estabelecida em 1964, incorpora-se a uma rede de dominicanos que simpatizam ativamente com a resistência armada contra o regime. Quando a repressão se intensificou, em 1969, socorreu a inúmeros revolucionários, ajudando-os a esconder-se ou a cruzar a fronteira para o Uruguai ou para a Argentina. Essa atividade custou-lhe cinco anos de prisão, de 1969 a 1973.
Em um livro fascinante publicado no Brasil e reeditado mais de dez vezes, Batismo de Sangue. Os dominicanos e a morte de Carlos Marighella (Rio de Janeiro, Ed. Bertrand, 1987), traça o retrato do dirigente do principal grupo revolucionário armado, assassinado pela polícia em 1969, bem como o de seus amigos dominicanos presos nas rodas da repressão e destroçados pela tortura. O último capítulo está consagrado à trágica figura de Frei Tito de Alencar, tão cruelmente torturado pela polícia brasileira que jamais recobrou seu equilíbrio psíquico: libertado da prisão e exilado na França, sofreu uma aguda mania de perseguição e cometeu suicídio em 1974.
As Cartas da Prisão de Betto, publicadas em 1977, mostram seu interesse pelo pensamento de Marx, a quem designava, para burlar a censura política, “o filósofo alemão”. Em uma carta de outubro de 1971 a uma amiga, abadesa beneditina, observava: “a teoria econômico-social do filósofo alemão não teria existido sem as escandalosas contradições sociais provocadas pelo liberalismo econômico, que o conduziram a percebê-las, analisá-las e estabelecer princípios capazes de sobrepô-los” [5].
Depois de sua libertação da prisão, em 1973, Frei Betto consagrou-se à organização das comunidades Eclesiais de base. Durante os anos seguintes publicou vários folhetos que, em linguagem simples e inteligível, explicavam o sentido da Teologia da Libertação e o papel das CEBs. Logo, converteu-se em um dos principais dirigentes dos encontros intereclesiais nacionais, onde as CEBs de todas as regiões do Brasil intercambiam suas experiências sociais, políticas e religiosas. Em 1980 organizou o 4º Congresso internacional dos Teólogos do Terceiro Mundo.

Desde 1979 Betto é responsável pela Pastoral Operária de São Bernardo do Campo, cidade industrial do subúrbio de São Paulo, onde nasceu o novo sindicalismo brasileiro. Sem vincular-se a nenhuma organização política, não escondia suas simpatias pelo Partido dos Trabalhadores (PT). Após a vitória eleitoral do candidato do PT, Luis Inácio Lula da Silva, em 2001, foi designado pelo novo presidente para dirigir o Programa “Fome Zero”; no entanto, descontente com a orientação econômica do governo, prisioneiro dos paradigmas neoliberais, demitiu-se de seu posto dois anos depois.
Enquanto alguns teólogos tentam reduzir o marxismo a uma “mediação sócio-analítica”, Betto defende, em seu ensaio de 1986, Cristianismo e Marxismo, uma interpretação muito mais ampla da teoria marxista que inclui a ética e a utopia: “o marxismo é, sobretudo, uma teoria da práxis revolucionária (…). A prática revolucionária sobrepõe-se ao conceito e não se esgota na análise estritamente científica porque, necessariamente, inclui dimensões éticas, místicas e utópicas (…). Sem essa relação dialética teoria-práxis, o marxismo se esclerosa e se transforma em ortodoxia acadêmica perigosamente manipulável pelos que controlam os mecanismos do poder”. Esta última frase é, sem dúvida, uma referencia crítica a URSS e aos países do socialismo real que constituem, em sua maneira de ver, uma experiência deformada por sua “ótica objetivista”, sua “tendência economicista” e, sobretudo, por sua “metafísica do Estado”.
Betto e Boff, como a imensa maioria dos teólogos da libertação, não aceitam a redução, tipicamente liberal, da religião a um “assunto privado” do indivíduo. Para eles, a religião é um assunto eminentemente público, social e político. Essa atitude não é necessariamente uma oposição à laicidade; de fato, o cristianismo da libertação situa-se nas antípodas do conservadorismo clerical:
– Predicando a separação total entre a Igreja e o Estado e a ruptura da cumplicidade tradicional entre o clero e os poderosos.
– Negando a idéia de um partido ou um sindicato católico e reconhecendo a necessária autonomia dos movimentos políticos e sociais populares.
– Rechaçando toda idéia de regresso ao “catolicismo político” pré-crítico e sua ilusão de uma “nova cristandade”.
– Favorecendo a participação dos cristãos nos movimentos ou partidos populares seculares.

Para a Teologia da Libertação não existe contradição entre essa exigência de democracia moderna e secular e o compromisso dos cristãos no âmbito político. Trata-se de dois enfoques diferentes da relação entre religião e política: desde o ponto de vista institucional é imprescindível que prevaleça a separação e a autonomia; porém, no âmbito ético-político o imperativo essencial é o compromisso.
Levando em consideração essa orientação eminentemente prática e combativa, não é de se estranhar que muitos dos dirigentes e ativistas dos movimentos sociais mais importantes dos últimos anos – desde 1990 -, fossem formados na América Latina segundo as idéias da Teologia da libertação. Podemos dar como exemplo o MST, um dos movimentos mais impressionantes da história contemporânea do Brasil, por sua capacidade de mobilização, seu radicalismo, sua influência política e sua popularidade (além de ser uma das principais forças da organização do Fórum Social Mundial). A imensa maioria dos dirigentes ou ativistas do MST procedem das CEBs ou da Comissão Pastoral da Terra: sua formação religiosa, moral, social e, em certa medida, política, efetuou-se nas filas da “Igreja dos pobres”. No entanto, desde sua origem, nos anos 70, o MST optou por ser um movimento leigo, secular e autônomo e independente com relação à Igreja. A imensa maioria de seus militantes é católica; porém, também há evangélicos e não crentes (poucos). A doutrina (socialista!) e a cultura do MST não fazem referência ao cristianismo; porém, podemos dizer que o estilo de militância, a fé na causa e a disposição ao sacrifício de seus membros, muitos têm sido vítimas de assassinatos e até de matanças coletivas durante os últimos anos, têm, provavelmente, fontes religiosas.
As correntes e os militantes cristãos que participam no movimento altermundista são muito diversos – ONGs, militantes dos sindicatos e partidos de esquerda, estruturas próximas à Igreja – e não partilham das mesmas escolhas políticas. Porém, a imensa maioria se reconhece nas grandes linhas da Teologia da Libertação, tal como a formularam Leonardo Boff, Frei Betto, Clodovis Boff, Hugo Assmann, José Comblin, Dom Tomás Balduino, Dom Helder Camara, Dom Pedro Casaldáliga, e tantos outros conhecidos e menos conhecidos, e partilham sua crítica ética e social do capitalismo e seu compromisso pela libertação dos pobres.

BIBLIOGRAFIA
Leonardo Boff, Jesus Christ Libérateur, Paris, Cerf, 1985.
L. Boff, Eglise, Charisme et Pouvoir, Bruxelles, Lieu Commun 1985.
L. Boff, O caminhar da Igreja com os oprimidos, Petrópolis, Vozes, 1988, 3a edição, prefacio de Darcy Ribeiro.
L. Boff, “Je m’explique” (entrevistas con C. Dutilleux), Paris, Desclée de Brouwer, 1994.
L. Boff, Dignitas Terrae. Ecologia: grito da terra, grito dos pobres, S.Paulo, Ática, 1995.
L. Boff, “Libertação integra: do pobre e da terra”, in A teologia da libertação. Balanço e Perspectivas, S.Paulo, Ática, 1996.
Fr. Fernando, Fr. Ivo, Fr. Betto, O canto na fogueira. Cartas de três dominicanos quando em cárcere político, Petrópolis, Vozes, 1977.
Frei Betto, Cristianismo e Marxismo, Petrópolis, Vozes, 1986.
Frei Betto, Batismo de Sangue. Os dominicanos e a morte de Carlos Marighella, Rio de Janeiro, Editora Bertrand, 1987.
Théologies de la libération. Documents et debats, Paris, Le Cerf, 1985.
Michael Löwy, La guerre des dieux. Religion et politique en Amerique Latine, Paris, Ed. du Felin, 1998.
NOTAS:
[1] L. Boff, Jesus Christ Libérateur, París, Cerf, 1985, pp. 51-55. Ibid. p. 275.
[2] L.Boff, “Libertação integra: do pobre et da terra”, in A teologia da libertação. Balanço e Perspectivas, S.Paulo, Ática, 1996, pp. 115, 124-128.
[3] Entrevista de Frei Betto con el autor, 13-09-1988.
[4] Fr. Fernando, Fr. Ivo, Fr. Betto, O canto na fogueira. Cartas de três dominicanos quando em cárcere político, Petrópolis, Vozes, 1977, pp. 39 e 120.
[5] Frei Betto, Cristianismo e Marxismo, Petrópolis, Vozes, 1986, pp. 35-37.

2o. ESTUDO

FAMÍLIA IGREJA DOMÉSTICA, LUGAR SEGURO PARA VIVER O AMOR.

Pe. Auricélio Paulino da Silva

Querido Dom Esmeraldo Barreto de Farias, bispo de Santarém, caríssimo  Dom Erwin Krautler,   bispo do Xingú , Dom Carpistrano, bispo de Itaituba, Dom Bernardo bispo de  Óbidos  prezado Pe. Luiz Antonio Bento, assessor nacional da Comissão  Vida e Família da CNBB, caro Pe. Antonio Jorge, assistente espiritual da Pastoral Familiar, querida Maria de Fátima  e Airton Barros coordenadores da Pastoral Familiar do Regional Norte 2, queridos coordenadores diocesanos Braz e Nelcia e demais coordenadores prelatícios da Pastoral Familiar, caríssimas  delegações  das prelazias de Óbidos, Itaituba e Xingú e da diocese de Santarém, meus amados e amadas.

O tema central deste 1º. Congresso da Pastoral Familiar do Oeste do Pará é: Família Igreja doméstica, lugar seguro para viver o amor. Vamos repetir juntos… Família Igreja doméstica, lugar seguro para viver o amor.

Quero iniciar, sobremaneira, tentando dar uma definição para cada termo chave deste tema: a “Família”, a “Igreja doméstica”, o “Lugar seguro” e o “Viver o amor”.

1. A Família: A Família é o lugar ontológico, o lugar do ser, mais importante e fundamental da vida da pessoa. Do nascimento ao crescimento, do desenvolvimento à vivência cotidiana, a família é presença marcante em todos os aspectos de vida da pessoa criada à imagem e semelhança de Deus. O livro do Gênese afirma que “Deus criou o homem à sua imagem; à imagem de Deus ele o criou; e os criou homem e mulher. E Deus os abençoou e lhes disse: “Sejam fecundos, multipliquem-se, encham e submetam a terra; dominem os peixes do mar, as aves do céu e todos os seres vivos que rastejam sobre a terra”.(Gen 1, 27-28). Ao aproximar reciprocamente homem e mulher, Deus demonstrou possuir um plano, um projeto de realização do ser humano, através de uma união sólida, objetivos comuns e uma relação de amor: a Família. O próprio Deus escolheu uma família para habitar e se encarnar no meio do povo. “Jesus desceu então com seus pais para Nazaré, e permaneceu obediente a eles. E sua mãe conservava no coração todas essas coisas. E Jesus crescia em sabedoria, em estatura e graça, diante de Deus e dos homens.” (Lc 2, 51-52) A Família de Nazaré é o modelo da qual devemos seguir.

2. A Igreja doméstica: A Família é chamada, no Concílio Ecumênico Vaticano II, de “Igreja doméstica”. No documento “Lumen Gentium” (nº11) esta escrito que: “Deste consórcio procede a família, onde nascem os novos cidadãos da sociedade humana, que pela graça do Espírito Santo se tornam filhos de Deus no batismo, para que o Povo de Deus se perpetue no decurso dos tempos”. A encíclica Familiaris Consortio retoma esta expressão, Igreja doméstica, tão querida a João Paulo II, onde afirma que “a família constitui o lugar natural e o instrumento mais eficaz de humanização e de personalização da sociedade: ela colabora de maneira original e profunda na construção do mundo, tornando possível uma vida propriamente humana…” (Familiaris consortio, 43). A Família fundada em Jesus Cristo, a pedra angular, é uma igreja feita à moda da casa, é uma pequena igreja, é uma igreja doméstica.

3. Lugar seguro: Um porto seguro para viver todos nos procuramos. Um lugar longe das tempestades sem abrigo e aconchego, dos infortúnios que os percalços da vida estabelecem todos nós precisamos. A Família é o nosso porto seguro, é o melhor lugar seguro para nascer, crescer e se desenvolver. Interessante, Deus nos ama tanto que nos fez nascer numa família, pois sabia que sozinhos nada seríamos, não seríamos nada mesmo. É possível viver, sozinhos? Claro que não! Para viver precisamos dos outros. E estes outros em nossa vida quem são? São os membros de nossa família. A família é o nosso porto seguro, onde podemos ser nós mesmos e encontrar apoio nas dificuldades de nossa vida. Se, por acaso, não conseguimos traçar um ideal de vida, maior do que nós, a família estar sempre pronta para nos segurar e sustentar. A família faz ser segura a própria vida, pois é onde se encontram auxílios para crescer e se desenvolver como pessoa e como cristão.

4. Viver o amor: Deus criou o homem à sua imagem e semelhança: chamando-o à existência por amor, chamou-o ao mesmo tempo ao amor. Deus é amor e vive em si mesmo um mistério de comunhão pessoal de amor. Criando-a à sua imagem e conservando-a continuamente no ser, Deus inscreve na humanidade do homem e da mulher a vocação, e, assim, a capacidade e a responsabilidade do amor e da comunhão. O amor é, portanto, a fundamental e originária vocação do ser humano. O amor é a vocação fundamental e existencial da família. A família é chamada constantemente por Deus a viver o amor. Melhor dizendo, a família é o berço natural do amor. “Deus é amor, e quem permanece no amor permanece em Deus e Deus nele” (1 Jo 4, 16). Uma família que aprendeu viver o amor vive e permanece em Deus.

Depois desta tentativa de definição, vamos procurar percorrer as linhas e as entrelinhas deste tema que nos arrebatará durante este congresso a encarar e assumir uma Pastoral Familiar como vivência de fé e vida conjunta.

5. Família Igreja Doméstica: Importantes e abundantes documentos da Igreja dão especial importância à comunidade familiar, a quem chamam de Igreja Doméstica, sede de formação de corpos, de almas e idéias, verdadeira escola do mais rico humanismo, e por onde nasce e se irradia a estabilidade e o destino do homem e da sociedade. Nesse contexto, a expressão Igreja Doméstica nos remete à idéia de um grupo de pessoas, a partir do casal, consagrado pelo sacramento do Matrimônio, que busca viver em seu lar aquele amor que emana de Deus, e que tanto o alegra. Se considerarmos igreja como casa de Deus e, ao mesmo tempo, como comunidade, compreenderemos que Igreja Doméstica é aquele lugar privilegiado onde as pessoas vivem uma comum-união, no amor e na participação. Enfim, um lugar onde o Cristo tenha sido convidado, se sentido bem e ficado para morar…

Da grande experiência de minha própria família cearense, que veio morar nas terras em torno de Mojui dos Campos, a minha irmã Eronildes da Silva, mais conhecida como Mocinha, a dona Mocinha é que nos oferece o seu próprio testemunho de Família Igreja Doméstica, da qual aprendemos a viver com minha mãe Maria e meu pai Francisco Paulino. E a minha sobrinha Jaqueline Paulino que já é um fruto desta igreja comunhão trinitária familiar.

Meus pais nos ensinaram que a realidade familiar é construída pela acolhida e por um amor profundo que nos levou a uma educação que nos abriu progressivamente a uma descoberta do dom da vida, chamados a atingir gradativamente uma autonomia própria. Papai e mamãe são como jardineiros (oferecem as condições) e nos os filhos somos como as plantas (que crescemos a partir das próprias raízes, tronco, galhos e folhas) e que há nosso tempo deveremos produzir frutos. Nosso processo educativo nos fundamentou na busca dos valores e princípios que nos ajudaram a sermos livres, responsáveis, de modo que seus ensinamentos nos abriram para o dom da fé e este processo pedagógico até hoje esta sendo correspondido com convicções brotadas de uma experiência pessoal com Deus, de um em encontro pessoal com Jesus Cristo. Assim, nossos pais nos ensinaram a sermos discípulos missionários de Cristo caminho, verdade e vida.

Igreja Doméstica, portanto, nada mais é que uma comunidade de pessoas de fé, esperança e amor, reunidas em nome de Deus, que celebra diariamente um culto à vida e ao amor recíproco, louvando a Deus, pelo amor de Cristo que os reuniu. Como “pequena Igreja”, a família cristã, à semelhança da “grande Igreja”, é chamada a ser sinal de unidade para o mundo e a exercer, deste modo, seu papel profético, testemunhando o Reino e a paz de Cristo.

Assim, o lar da família, seja uma choupana, uma casa modesta ou um luxuoso apartamento, torna-se Igreja Doméstica na medida em que seus membros se amam e transformam esse amor sacramento – sinal – para o mundo.  O vocábulo lar deriva, no latim, de lare que quer dizer fogão, lugar de calor, daí lareira.  O lar da família é o lugar onde o calor dos corações que se amam serve de lareira para todos.

6. Lugar seguro para viver o Amor: uma família onde Cristo seja o modelo de entrega é capaz de afirmar, com sua unidade, que infidelidades, separações, divórcio e as desordens daí decorrentes, têm nos verdadeiros lares um terreno árido onde dificilmente se expandirão, porque sua construção é sólida e, se de um lado há a limitação e a fragilidade humana, de outro, compondo o vértice superior do triângulo, está aquele terceiro coração, Cristo, que ensina aos casais, aos filhos e às famílias, o caminho para se tornarem modelo e testemunho, como a Sagrada Família de Nazaré.

Somente fundamentada em Cristo a família será um lugar seguro para viver o Amor. E para viver neste lugar seguro precisa ser alimentado com o testemunho de diálogo, oração, eucaristia, partilha de angústias e expectativas. Um lar seguro, uma família segura, torna maduras as pessoas, e a maturidade é a complementação humana, no terreno psicológico, que vai estabilizar a convivência, tornando a família aberta aos dons da fé, do amor e da esperança, copiosamente derramados sobre os que dedicam suas vidas a serviço do amor.

Para dar um testemunho sobre este lugar seguro para viver o Amor, temos aqui a presença do Sr. Antônio Mendes e a Srta. Eliane Brito Mendes, pai e filha, catequista da comunidade de Corpus Christi, no Km 135 da BR-163, Santarém-Cuiabá, na paróquia de Belterra, diocese de Santarém.

Os filhos, em geral, sentindo o calor da participação e da solidariedade em sua casa, sentem-se bem seguro nela, trazem amigos e colegas para conviver e desfrutar esses momentos de paz, como o caminheiro que se sente reanimado ao encontrar uma fonte.  Esse ambiente seguro, pela graças a Deus, as famílias cristãs sentem e desfrutam em sua casa.

Infelizmente sei que há gente que foge de casa indo para a rua. Imaginem como deve ser o ambiente nesse “lar”? Será que è um lugar seguro para viver o amor? Há os que, tendo um ambiente amoroso em casa, vivendo e sentindo o calor do lar (lareira, lembram a expressão?), fogem das coisas da rua, dos antivalores do mundo, vindo para o aconchego de sua casa.  Como a Igreja, a família é refúgio para todos, especialmente para os cansados e oprimidos (cf. Mt 11, 28).

7. Chegando a conclusão: da importância  da família como igreja doméstica, que é  um lugar seguro para viver o amor, quero sublinhar que a devoção a filial a Maria, mãe de Jesus, é algo igualmente importante. Foi ela que, naquele casamento, em Caná da Galiléia, pressentiu que a falta de vinho ia estragar a festa dos noivos. Sua intuição de mãe sugeriu ao filho que auxiliasse o casal imprevidente. Embora afirmando que sua hora ainda não havia chegado, Jesus transformou água em vinho, restituindo a alegria para aquele casamento. Esse foi o primeiro milagre de Jesus, e os discípulos creram nele (cf. Jo 2, 1-11). Isso serve para vermos a intervenção de Jesus, a pedido de Maria, quando num casamento o vinho da alegria acaba, ou se transforma no ácido vinagre do egoísmo.

Com Maria e Jesus morando em nossa Igreja Doméstica, sempre é possível repetir o milagre, fazendo com que o individualismo, a dificuldade em pedir perdão, a intolerância, que dividem e bloqueiam, dêem lugar ao vinho novo do amor renovado, mais gostoso, abundante, guardado para o fim da festa, para convidados especiais. Para essas providências, é indispensável a presença de Cristo, como o telhado que protege e a rocha que firma os fundamentos de nosso lar.

Sobre a importância de Deus na vida humana, como o mentor do lugar seguro para viver o amor, assim se manifestou o salmista: “Se o Senhor não construir a casa, em vão trabalham os operários; se ele não cuidar da cidade, debalde vigiam as sentinelas” (Sl 127,1)

Hoje os jovens são arredios ao Matrimônio por que a sociedade prega o des-compromisso, o egoísmo e o individualismo. Alguns que casam o fazem olhando de soslaio a porta da saída, chamada divórcio. Os casais mais antigos, cujos casamentos duravam mais (“até que a morte nos separe”) porque faziam força para que a união desse certo, e não se dispunham a capitular ao primeiro contratempo.

Nos cursos e encontros que temos participado e ministrado na paróquia de Belterra, tanto para noivos, como casais jovens ou casados há tempo, sempre concluímos nossa exposição sobre Igreja Doméstica, Lugar seguro para viver o Amor, afirmando não se tratar apenas de uma postura beata, piegas, alienada ou romântica. Mas de uma postura de igreja doméstica que estar dentro de uma efetiva e eficaz pastoral de conjunto, inclusive com outras famílias e até vivendo nas CEBs, luta pela defesa da Amazônia, seus povos e sua biodiversidade sendo profetisa na defesa da vida e do meio-ambiente e tem um espírito de evangelização e formação missionárias segundo os passos do mestre Cristo Jesus.

Trazendo Deus conosco, à medida que o tempo avança, quanto mais passam os anos, mais vão sendo eliminadas as arestas, mais compreensão e doação vão acontecendo. Isso, claro, para quem, construindo uma casa sobre a rocha, que é Cristo, soube transformar uma simples casa, em Igreja Doméstica. Que sabe comunicar com amor a verdade da vida, e EVANGELIZAR a partir do encontro com Jesus Cristo, como discípulos missionários, à luz da evangélica opção preferencial pelos pobres, proclamando e testemunhando a Boa Nova, lutando pela preservação da natureza e pelos direitos dos povos na Amazônia, promovendo a dignidade da pessoa, renovando a comunidade, participando na construção de uma sociedade justa e solidária, “para que todos tenham vida e a tenham em abundância” (Jo 10,10).

A família enquanto célula da sociedade é, por desejo de Deus, chamada a ser uma célula eclesial, uma igreja doméstica, uma igreja de casa, uma casa que se torna uma pequena igreja. É assim que a Igreja será uma grande família: se as famílias forem realmente igrejas; igrejas vivas, atuantes, fermentadas pelo amor traduzido em comunhão, celebrando e cultivando a vida, acolhendo o mistério da Trindade-Comunidade para irradiá-lo no testemunho ao mesmo tempo humilde e corajosamente generoso.

Com Deus em nossa casa, se pode concluir que, se um dia tivemos problemas em nossa vida matrimonial, problemas no relacionamento entre os irmãos e cunhados, etc… Isso foi graças a nós, e se hoje somos felizes e nos sentimos realizados, é graças a Deus. Aí se poderá afirmar como disse, surpreso, o “mestre-sala” naquela festa em Caná: “… vocês guardaram o melhor vinho até o fim…” (cf. Jo 2, 10).

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